Histórias da Vida: Um dia de luto…

25 10 2008

O caso Eloá mexeu comigo. Fiquei revoltado em como um cidadão de 22 anos consegue ser tão infantil ao ponto de, ao terminar o namoro, ir lá e sequestrar a ex. Sério, isso não entra na minha cabeça. Me revoltei mais ainda quando fiquei sabendo que o infeliz atirou nela. E pior ainda quando veio a notícia da morte. Alguns amigos que eu estava conversando no MSN presenciaram meu momento de raiva e ódio desse animal no momento da notícia. Ninguém, eu repito, ninguém tem o direito de tirar a vida de outra pessoa! Só Deus! E de 15 anos ainda? Ela tinha tanta coisa pra fazer na vida ainda, tanta coisa pra ver, tanta coisa pra dar risada, se divertir, tanta coisa pra VIVER ainda!

Mas por que eu fiquei tão encucado com isso, vocês perguntam? Porque eu sei como é perder um amigo de um dia pro outro. Sei como é um dia a pessoa estar ali, dando risada com você, e no próximo você ter que engolir que nunca mais vai ver nem conversar com aquela pessoa novamente. Sei como é ter que olhar nos olhos da mãe dessa pessoa depois e, mesmo sem saber o que falar, ter que dizer algo reconfortante. E é disso que eu vim falar aqui hoje.

Mesma coisa do caso Eloá: primeiro ano do colegial, escola pública, 15 anos. Manhã fria, preguiça de ter que levantar às 5h50 da manhã pra me arrumar e ir para a escola. Mas fui mesmo assim. E desejei nunca ter ido.

Chegando lá, um grupo de pessoas se aglomerando ao redor do mural da escola. Nunca tinha visto tanta movimentação por ali antes. E antes que eu pudesse chegar perto pra ver o que estava acontecendo, eu a vi.

Carina, uma amiga minha da escola, estava vindo na minha direção. Eu dei um sorriso pra cumprimentar, mas nunca recebi um de volta. Chegando mais perto vi que seus olhos estavam vermelhos e seu rosto molhado. Antes que eu pudesse perguntar o que tinha acontecido, ela disparou: “O Edward morreu.”

A ficha não caiu. As palavras entraram por um ouvido e saíram por outro. Meu cérebro simplesmente não assimilou essas três últimas palavras que eu acabara de ouvir. Com uma expressão perplexa na minha cara, ela tornou a repetir. Era mentira. Só podia ser. Primeiro de abril talvez? Não, não era. Mas não podia ser verdade. Precisava ver com meus próprios olhos, então corri para o mural, atropelando qualquer pessoa que entrasse no caminho.

E lá estava o aviso. Com o nome dele. Vítima de atropelamento, traumatismo craniano.

E eu fiquei parado, boquiaberto, olhando pro aviso. Reli diversas vezes, na esperança de que meus olhos fizessem as letras ali escritas mudarem de formato de alguma maneira, mudar o que estava acontecendo, o que tinha acontecido…

Olhei pra trás… O Jorge, outro amigo meu, estava lá, também com os olhos vermelhos. Eu, a Carina, o Jorge, e o Edward formávamos um quarteto de amigos amplamente conhecido dentro da classe e da escola. Mas, de repente, não éramos mais quatro. Estava faltando um. Viramos um trio da noite para o dia. Não dissemos nada. Nos abraçamos e ali ficamos, quietos, enquanto a realidade batia na porta de cada um de uma forma violenta.

A inspetora chegou, e, vendo a muvuca provacada na frente do mural, mandou todo mundo pra sala. E nós fomos. Chegando lá, o professor de Química, um sujeito que admiro muito, entrou na sala e mandou todos abrirem os cadernos. A sala, em completo silêncio, obedeceu. Eu não estava acreditando que ele iria passar matéria numa situação dessas, quando ele falou: “Quero que vocês façam uma carta destinada ao amigo de vocês. Essas cartas serão entregues amanhã para a mãe dele, que estará presente aqui na escola daqui a uma semana, que é onde vai ser feita a missa de sete dias dele. Podem começar.”

E foi só aí que a ficha caiu.

E eu chorei. Muito. Estava trêmulo, minha cabeça não funcionava direito, não conseguia escrever nada. Soluçando, eu olhava pro pedaço de papel na mesa e voltava a chorar. Isso não era normal, isso não é certo. Como pode um sujeito de 15 anos, que nunca fez mal pra ninguém, morrer de uma hora pra outra? É errado, não está certo! Os pais não devem enterrar seus próprios filhos! Eu não me conformava, não conseguia entender.

Acho que nem quando meu avô morreu eu fiquei tão mal. Com ele, foi mais natural, velhice e câncer, eu já estava mais preparado, já era algo esperado. Claro, foi um puta baque pra mim e fiquei quase uma semana sentindo a perda dele, mas um sujeito de 15 anos? Do nada? Não… isso estava errado, não era assim que tinha que ser…

Mas foi, e mais cedo ou mais tarde eu tinha que aceitar. Foi difícil. Imagens dos dias anteriores não paravam de surgir na minha cabeça. Todo mundo no pátio, dando risada… Me lembro que ele vivia cantando uma música do filme do South Park… Filme que eu ainda não tinha visto e, quando finalmente fui ver, me trouxe lembranças dele.

Não tenho nenhuma foto com ele pra guardar de lembrança, apesar de que não é necessário… A memória faz um ótimo trabalho. Memória fotográfica ainda… Apesar de que, essas são algumas das cenas que eu gostaria de esquecer, momentos tristes… Quem dera eu só lembrasse dos momentos alegres e felizes!

Bom… deixo esse post aqui pro pessoal que for ler saber que, apesar de não parecer, tudo pode mudar de um dia pro outro. Mas o tempo cura qualquer mal, mesmo que deixe algumas marcas em alguns casos… O Histórias da Vida está aí pra isso: passar experiências, sejam boas ou ruins, para o pessoal que esteja lendo… Pois experiência nunca é demais, e é com elas que a gente aprende.


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2 responses

8 11 2008
Victor François

Cara, vou ser sincero, li todas as palavras escritas na página inicial do blog, só não prossegui na entretida leitura pelo fato de meu estado físico as 02:09 da manhã de um sábado não permitirem.

Bom, primeiramente parabéns pelo blog. Sensacional. Espontâneo e super interessante, uma leitura que te prende, de artigo em artigo.

Falando desse post em especial, o caso Eloá me tocou pela tragédia que foi, pela repercussão que teve e pelo ato banal de um ser ignorante. Um sub-título de uma outra matéria sua caberia bem: A péssima mania de achar que é Deus. Será que o tal de Lindemberg pensava que tinha semelhantes poderes? porque não vejo explicação racional nem sequer emocional para um ato animalesco como o dele.
Mas eu não sei dizer o que é sentir perder um amigo próximo querido que vc falou no dia anterior e é uma dor que eu não desejo a ninguém. A emoção que você conseguiu transpassar pelas palavras foi algo realmente difícil de conter.
O que me indigna mais ainda é que as pessoas lêem e se informam sobre isso mas não as afeta até que a tragédia bata em sua porta. Não desejo que isso aconteça, mas que o individualismo e egocentrismo reinam na nossa sociedade é fato.
Sinto muito pelo seu amigo.

Abraço, Victor.

10 11 2008
Mariana

Coleguinha, nem sei o que dizer… (e eu já te disse isso huahuahuahua)
Mas enfim, o tempo já passou e como você mesmo disse já deve ter curado o machucado feito naquele dia… A gente sabe que cicatrizes ficam e eu nem imagino a dor que isso traz, mas eu já tive uma pequena amostra e é realmente estranho…
O ser humano não foi feito para morrer, e é por isso que a morte é algo que não conseguimos entender, aceitar… apenas lamentamos…
Agora, se cabe um segundo comentário aqui, gostaria de dizer que você escreve muito bem! Nossa, sei que já te disseram isso ali em cima, mas foi realmente envolvente as suas palavras… parabéns pelo post! E espero que as dores e a revolta já tenham passado!
=)
Um abraço de consolo atrasado uns 5 anos pra você colega!!
*———————-(-___-)——————-*

Mariana

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