[Inestórias] O dia que o pau comeu solto

31 08 2008

Olá, meus queridos! Como vão??

Essa semana eu precisei de ir até a Avenida Paulista recolher uma documentação em um banco lá. Coisas do serviço, sabem como é. Estava um dia comum, o sol brilhava atrás de algumas nuvens e as pessoas berravam em mais uma passeata costumeira. Estávamos eu, o Ricardo e o Jenival. Chegamos ao banco e estava aquela fila quilométrica, cheia de gente suando, velhas, mulheres de cabelo ruim e chapinhado, homens gordos e com a camisa suja de tinta, office-boys, enfim! Povo bonito. Você tinha que ver. Povo bonito.

Como o nosso serviço ali não era ordinário, nem pegamos a fila. Fomos direto para o caixa pedir a autorização para entrar na administração. Acontece que antes mesmo de sermos atendidos, uma velha começou o murmurinho:

— Onde você tá pensando que vai?
— Eu vou… — ia dizendo, antes de ser interrompido pelo resto da fila em fúria.
— Lá pra trás, espertão! — gritou um homem.
— Não na minha frente! — foi a vez de uma empregadinha outra senhora.
— Cê tá loco, véi?! — gritou o motoboy.

Eu e meus colegas tivemos a pequena sensação de que seríamos linchados ali mesmo pelo povo em erupção. Foi então que chegou o gerente para acalmar a situação.

— O que está acontecendo aqui?!
— Nós somos da CATs! — disse o Ricardo, prontamente.
— Ah, por favor, me acompanhem! — disse o gerente, nos levando para longe do ódio faminto e insaciável da multidão da fila que deveria estar ali por pelo menos umas 2 ou 3 horas.

Depois que fomos atendidos numa boa, pegamos o que nos pertencia e fomos almoçar. Enquanto almoçávamos, jogamos guerra de dedos, apostando um castigo para quem perdesse. E adivinhem: eu perdi. Tudo bem, o castigo que eles me deram foi chegar naquela montueira de italianos que se concentravam na frente do consulado e dizer umas frases que eu não sabia o significado. Idéia do Jenival. Vamos lá, tenho que cumprir, afinal de contas, segundo o artigo 2º do Código do Homem, “qualquer aposta ou promessa deverá necessariamente ser cumprida, com a pena de dúvidas sobre a masculinidade caso ocorra o contrário”.
Cheguei ali no meio da multidão italiana e gritei, para que todos pudessem ouvir:

— Ognuno è gaio! (É tudo bandibicha!)
— Andiamo battere in loro!! (Vamos pegar esse cara de pau!) — disse um deles.
— OGNUMO È GAIOOOO, PORRA!!! (É tudo queima-rosca, porra!)
— Andiamo bettere in loro!! Fillo de puta! (Vamo catá esse desgraçado de pau! Filho da puta!)

Quando eu dei por mim, estava correndo desesperadamente daquela multidão nervosa de italianos super machões e famintos por umas bofetadas na minha cara. E eu corria, balançando os braços e gritando “Ognumo è gaioooo!!”. Foi quando de repente a multidão começou a fechar as saídas da avenida, vindo de todos os lugares. É, os italianos são mais espertos do que eu imaginei: enquanto uma parte corria atrás de mim, a outra pegou um metrô até a próxima estação pra vir de encontro e me encurralar. É, me ferrei bonito. Consegui contar 34 mãos diferentes me batendo nos 198 primeiros socos que levei no rosto. Depois disso perdi a noção do que era a vida.

Vejo o lado positivo disso: peguei 1 mês de folga pela licença que o médico. Cheguei à conclusão de que o Ricardo e o Jenival, vendo que eu estava começando a ficar cansado, resolveram dar um jeitinho pra que eu tirasse umas férias. Isso é que é amizade!

No mesmo dia, felizmente, tive alta. Estava andando de muleta, com uma perna engessada, uma tala no dedo indicador direito, outra no mindinho esquerdo, outra no mindinho direito, duas no dedão esquerdo e uma no dedo do meio direito. Meu braço esquerdo estava deslocado e o direito quebrado. Mas peguei um mês de folga.

À tardinha, fui à lojinha de conveniências comprar algumas coisas pra comer, com a extrema dificuldade proporcionada pela muleta. Chegando lá, solicitei à única atendente que tinha lá, uma moça gorda, de cabelos louros e crespos e grandes, maquiagem forte e pele branca como de uma lagartixa, que me pegasse algumas coisas enquanto eu esperava. Foi quando uma outra mulher, de cabelo curto e crespo, baixinha, feição de invocada, bigode e sotaque bem puxado, chegou com uns pacotes na mão, jogou na cara da atendente e disse:

— Fica com essa merda! Não preciso de presentinhos seus, vaca!!

E saiu. A moça que estava me atendendo me disse com calma e simpatia:

– Moço, pode me dar um minutinho? Vou ali matar e já volto.

E saiu. Nesse momento eu gelei. Um grito no meio da rua e vários sons de socos, tapas, chutes, mordidas, puxões de cabelo e tudo mais começaram a soar lá na rua. E eu ali, com uma dificuldade imensa de me mexer. Infelizmente não vi a cena, porque quando eu cheguei a polícia já estava no meio, tentando fazer a atendente da lojinha parar de socar o ex-nariz da outra vagabunda. Dois minutos conversando com os policiais antes de voltar e dizer:

— Desculpe, moço! Vamos lá, vou pegar suas coisas.

Cheguei em casa um pouco transtornado, confesso. Era a primeira vez que vi tanto desejo por rolo de cabeças na minha vida. As pessoas pareciam mais que estavam em algum deserto sufocante e que o sangue alheio era uma grande garrafa de água infinita e gelada. Isso me fez entrar em uma pequena crise existencial durante alguns segundos.

Com aquela depressão toda, precisei assistir a algum filme para me acalmar. Foi então que eu liguei no único canal de filmes que funciona na minha tv à gato cabo. Para um dia de pura violência, nada poderia me fazer piorar. Estava nos créditos do filme que acabara de passar. Maravilha, vamos assistir um novo filme desde o começo. E qual era? “O Clube da Luta”.

Hoje estou um pouco melhor. A overdose de violência já passou. Espero que definitivamente, porque naquele dia eu me senti extremamente perturbado, com vontade de sair como um louco e socar a cara de todo mundo, igual fazem aqueles filhinhos de papai que vão pra balada só pra bater e arrumar confusão. Agora sei o que se passa na mente desses Pit-boys delinquentes juvenis. Eu estava muito querendo quebrar a cara do primeiro imbecil que aparecesse na minha frente, mesmo com o corpo todo quebrado do jeito que eu tava. Faço isso depois.

Pra finalizar, o último trote que atendi antes de pegar a licença:

EU: Alô.
SACANA: Aí, palhaço! Tô com tua filha aqui hein!
EU: Hum. Tá, vamos negociar. O que você quer?
SACANA: Eu quero grana! Um milhão pra começar.
EU: Um milhão?! Cara, pelo amor de Deus! Eu não tenho essa grana toda!
SACANA: Eu não quero nem saber! Vende seu carro, sua casa, pega os esquema do banco! Não quero nem saber, passa a grana, rapá!
EU: Mas tudo o que eu tenho é a minha filha!! Não tenho mais nada!
*grito de mulher no fundo* (confesso que os gritos estavam tão intensos e desesperados que até pensei se tratar de um trote real mesmo)
SACANA: Se ela é a única coisa que você tem, é melhor passar logo o dinheiro maluco! Tamo aqui com ela!
EU: Pelo amor de Deus! Não faça nada com ela!
SACANA: É melhor fazer tudo o que a gente tá falanu pra ninguém se machucar!
EU: A gente? Num tá só você aí?
SACANA: Eu, porra! Pára de graça, vai mano! Para de graça! Se tu quiser sua filha virgem ainda, é melhor fazer o que tamo falando, porra!
EU: Tamo? Num era só você? E bem… acho que minha filha vocês não devolvem virgem nem se quisessem. Afinal de contas, ela tem 3 filhos já.
SACANA: …
EU: Você não está com os meus netos não, né?
SACANA: Eu não, mas eles daqui a pouco tão aqui, maluco! Vai, anota aí!
EU: Anotar o quê?
SACANA: O que você tem que fazer, porra! Pra me dar o dinheiro.
EU: Mas e meus netos?
SACANA: Já fomos pegar, caralho!
EU: Mas eles moram na Alemanha!
SACANA: … puta que pariu, eu acho que é do esquema!
EU: Esquema? Que esquema?
SACANA: Você é dos homi!!!
EU: Dim-dim!! Certa resposta! Lombardi, o que ele vai ganhar?
SACANA: Fudeu! Corre, corre que os homi tão chegando!!

A operação não foi completamente bem-sucedida. Os policiais conseguiram prender 3 dos bandidos que participavam, mas o que estava falando ao telefone conseguiu escapar. Infelizmente.

Um grande beijo a todos vocês!!

Por: Ariel Salgado Nascimento.

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As Inestórias de Epiriquidiberto – De vez enquando, aqui na Vida de um Universitário e no Castelo de Marfim.


Ações

Information

2 responses

4 09 2008
mortandela

Olá parceiro!

Visite o Mortandela Frita e participe da promoção de aniversário!

Abraço!

4 09 2008
Junior

Mude o link do meu blog. Prometo atualizá-la. Ou não.

Abraços grande amigo.

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