Inestória: Sofrendo e Ardendo

2 08 2008

Olá, meus queridos! Como vão?

Bem, como vocês sabem, infelizmente perdi minha Carteira Nacional de habilitação por ser surpreendido por um filho duma burra de um policial que me parou para fazer o tal teste do bafômetro. Perdi minha CNH por comer bananas flambadas em demasia. Fazer o quê, né?

Enfim, já que perdi minha licença para dirigir, tenho que ir trabalhar de ônibus agora. Gosto de ler os adesivos que encontro colados no vidro: “Respeitar o idoso é respeitar a si mesmo” ou “Proibido fumar”. Mas a plaquinha que mais gosto é “Proibido o uso de aparelhos sonoros” de uma lei que foi feita em 1968. Será que em 1968 os legisladores já previam o aparecimento de certas pragas que entram nos ônibus para infernizar a nossa vida? Não sei, só sei que detesto gente burra e que fazem de tudo pra nos ferrar. Resumindo, detesto calhordas e velhas.

Estava eu socado naquela lata de sardinhas às 6 da manhã, cheirando a sovaqueira de todas aquelas pessoas que se esfregavam e suavam no mesmo calor humano que nos envolvia naquele sofrimento. Quando a coisa ta feia, vai uma dica: jamais pense na seguinte frase “Pode piorar?” (ou similares). Um trovão e uma baita chuva começou a cair lá fora. Bem, chuva pode não significar nada, mas acredite: pessoas que têm mais opções de ônibus esquecem esse fato e se socam mais ainda no primeiro ônibus que aparece. Fora as janelas fechadas, o sufoco ainda maior e aquelas pessoas que tem as pregas soltas, liberando aquele cheiro mortal pelo reto (o famoso pum). Como eu disse antes, jamais pense “Pode piorar”, principalmente pela segunda vez. Não bastasse o inferno que eu me encontrava, um rapaz de cabeça estranha, cabelo mais ainda e vestido com uma camiseta do Corinthians, sacou um Motorola V3 do bolso e ligou. Simples assim. Começou a ouvir umas músicas que, pessoalmente, detesto! O funk moía enquanto o safado balançava a cabeça de um lado pro outro. Depois de umas 4 músicas de letra pornográfica e que incita a violência, o rapaz mudou para o rap. Pronto, era só o que faltava: viajar no ônibus daquele jeito ouvindo um desgramento reclamando da vida e levantando dados sobre negros no Brasil. Não quero saber que 40% “dos nêgo” que nascem nessa cidade são presos sem justificativa. Naquela hora eu não queria saber de porra nenhuma, só de chegar logo no meu trabalho para sair daquele sufoco infernal. Quando o repertório de rap acabou, um forró rala-coxa começou com uma histérica gritando “CALYPSO!!” a cada 5 segundos. Foi o “ó”! Não agüentei e disse:

— Aí, safado!! Desliga essa porra que eu não sou obrigado a ouvir essa merda!!

— Ta falanu comigo, sangue-bom?

— Não, tô falando com o único tapado, orelhudo e sem noção desse ônibus, seu maldito!

— Eu?

— Desliga essa porra, seu merda!!

Não sei, eu estava muito nervoso, como puderam perceber. O rapaz olhou pra mim e gritou:

— Aí maluco, vou te dar uma bifa!

— Vem aqui! Se você conseguir, né? Desliga essa porra antes que todo mundo aqui quebre essa sua cara!

Nesse momento a galera começou a se agitar. Sentindo que estavam do meu lado, eu me senti mais forte. Foi aí que o cobrador entrou no meio:

— Desliga essa porra, vagabundo! Tinha que ser corintiano! Desliga essa merda, não sou obrigado a ouvir essa bosta!

Na hora, o rapaz desligou e desceu no próximo ponto. Safado.

Cheguei no trabalho e fui muito bem recebido pelo pessoal. Ufa, pelo menos, quando a gente sai daquele inferno do ônibus, descobrimos que nada é pior. Mas isso até que foi bom: cheguei inspirado pra ferrar com os filhos da mãe que passam trote de seqüestro.

Na hora do almoço, saí com a Maria José para dar uma olhada nos filmes que vendem na rua do prédio da CATS. Me interessei por um que estava lá: “Batman: o Cavaleiro das Trevas”. Perguntei para o vendedor:

— Mas esse filme não está no cinema?

— Tá sim, doutor. Mas sabe, né? Aqui a gente só trata com novidade!

— E a qualidade tá boa?

— Tá sim senhor! Parece até que está assistindo no cinema!

— E você teria algum outro filme bom aí?

— Olha, filme bom eu tenho todos, mas interessante ao doutor eu tenho alguns que a senhorita aí não gostaria de ver.

— E você pode me mostrar?

— Claro! Ô Dente!! Traz lá o filme pro homem! Filme de homem!

Eu fiquei ali parado esperando o tal “Dente” trazer o filme. De repente chegou aquele cara, aquele mesmo que de manhã eu queria socar a cara por estar ouvindo aquelas merdas, aquele corintiano safado. Ele trouxe um DVD. Olhou pra mim, tomou um susto e disse:

— Você não é o viado que queria me socar hoje no ônibus?

— Não. – respondi, com sagacidade.

— É você mesmo, mano! Você é o viado que tava incomodado com minhas músicas!

— Não. Era eu mesmo quem queria te socar, mas o único viado aqui é você. – respondi pro malandro.

— IIIIIIIHHHHHH ÉEEEEEEEHHHHHH!!! – gritou o vendedor, agitando a confusão.

— Só não te pego de pau, maluco, porque você vai comprar essa merda desse filme de homem.

O cara deu o DVD pro vendedor que sorriu e disse:

— Esse Dente não tem jeito mesmo. Liga não, não bate nem numa pulga. Posso colocar?

— Pode! – respondi.

— Mas a senhorita que está com o senhor não vai se incomodar? – perguntou.

— Não, está tudo bem – respondeu a Maria – eu vi meu pai fazendo meu irmão… com a vizinha… então não tem problema!

O vendedor ligou o DVD, colocou o disco e a imagem começou, com letras garrafais: “ESTE FILME É DIRIGIDO APENAS AO PÚBLICO MASCULINO”. E começou o filme. E que filmaço!! Filme de macho mesmo! Um filme que passava a seleção brasileira de 1970 ganhando a copa do mundo. Todos os lances. Todas as jogadas. As melhores que já vi na minha vida.

— E não tem perigo eu levar esses DVDs não?

— Problema nenhum, doutor.

— Mas eles são falsos!

— São não senhor. Eles são legítimos! Legitimamente feitos na minha casa! Não tem erro!

De repente um grito soou ao longe: “OLHA O RAPA AÍ MANO!!! CORRE NEGADA!!!”

Em menos de 3 segundos o vendedor recolheu a mercadoria, pediu-me desculpas e saiu correndo, juntando-se à multidão de camelôs que também corriam dos PMs que invadiam as ruas. A boa notícia é que o cara esqueceu o filme comigo.

Cheguei no trabalho inspirado mais do que nunca. Foi então que minha linha tocou! Ah, finalmente um trote pra eu sacanear! Ei-lo:

SACANA: Ambrósio?

EU: Ele.

SACANA: Ambrósio, é o seguinte! Tamo co teu filho aqui maluco!

EU: Meu filho? Oh, meu Deus! Meu filho está maluco??

SACANA: Não, eu tô com ele aqui!

EU: Ah, entendi. E aí?

SACANA: Eu quero dinheiro, mano! Dinheiro!

EU: Eu também quero.

SACANA: Não brinca comigo, sangue-bom!

ALGUÉM NO FUNDO: AAAAHHHH PAI!! ELE TA APONTANDO A ARMA PRA MIM!!

SACANA: Eu não tô brincando! A casa vai cair pro seu lado, hein! Eu sei onde você mora!

EU: Então fala! Fala aonde eu moro!

SACANA: …

EU: Viu! Se você quiser matar meu filho, mate, porra! Mas depois agüenta as conseqüênciasssss, viu? Viado! Bicha!

SACANA: Você tá achando que isso é brincadeira, né? Que é trote, né?

EU: Tô nada! Se fosse trote você não saberia o nome do meu filho! Você sabe, né?

SACANA: Vitor Alves!

EU: Olha, você está afiado, hein viado!

SACANA: Vou matar esse condenado!

EU: Ah, você disse que sabe meu endereço. Mata meu filho, mas não vem aqui atrás de mim, hein!

SACANA: Por que? Acha que vou deixar você em paz??

EU: Não. Porque eu sei onde você mora.

SACANA: …

EU: Rua dos Clementes, altura do número 560, próximo a uma loja Renner.

SACANA: Você…

EU: Eu não, “os homi”. Cinco, quatro, três, dois, um… Tchauzinho!!

Um barulho arrombou a porta. A polícia federal acabava de invadir o local de onde estavam passando o trote. Foram presos 3 homens que haviam resgatado as informações da vítima no Orkut. O pai, Ambrósio, só havia percebido que se tratava de um trote quando ligou de um celular para o filho e garantiu que ele estava bem e seguro em seu trabalho.

Bom, por hoje é só. Eu fico por aqui. Um grande beijo a todos vocês e até a próxima!

Por: Ariel Salgado Nascimento.

============================================
As Inestórias de Epiriquidiberto – Todas as quartas-feiras de noite, aqui na Vida de um Universitário e no Castelo de Marfim.


Ações

Information

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: